Olhos castanhos

Enquanto o céu chora no horizonte
O lápis chora no papel
Na troca de olhar, se esconde
Na falta de estar, cruel

Na mente que vinga, perdi
Caminho perdido, me achei
Em olhos castanhos, me vi
Nas luzes queimadas, guardei

Vagando no escuro, cai
De queda em queda, parei
Em olhos castanhos, perdi
Nas águas passadas, voltei

Em pétala murcha me fiz
Pra encontrar um rumo, calei
Em olhos castanhos, já quis
E o mundo da volta, outra vez

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Mente sã

Se perder é a melhor forma de se encontrar
Largar velhos hábitos
Disparar
Enquanto o tempo voa, e a noite é uma criança

Mergulha no teu orgulho
Pra achar onde se perdeu
Nas vésperas do acaso
No riso, que não é seu

Mergulha no teu espelho
Pra ver o que o mundo tem pra mostrar
Porque ninguém, literalmente ninguém
Você, por onde anda agora

Se levando pela correnteza
Uma hora encontra terra firme
Se até a vida é passageira
Porque espera que fiquem?

Escape

Não deveríamos lutar pelo amor
Que amor é esse que não pode ficar
Que no espelho, intenso, quer ferir teu pudor
No lugar do agora, quer fazer esperar

No olhar passado, não pode esquecer
No lugar do sempre nunca quis estar
Prefere a solidão que se deixar querer
Num oceano infinito, a afundar

Num trem imenso, a seguir
Nos vagões tormentos, a se olhar
Num balão sem vento, a cair
A cair no eco do lembrar

De todo caos, se despedir
E em outros planos, se encarar
Sem olhar futuro, explodir
Válvula de escape, não pensar.

Vastidão

Se no entanto, quis partires
Porque ainda, aqui estas
Jaz no fogo, mal dizeres
Jaz no acaso, mal buscar

Luta ao livre, codinome
Vaga ao fim, sem se saber
Vá se embora, perante some
Jorre ao mar, o teu querer

Quem socorre, o mar que jorra
Na imundice que vive em vão
De águas salgadas, perante chora
Perante jorra, imensidão

Que faz no altar, o precipício
Embora jaz, sabor do não
Sem escaldar, o teu oficio
Teu precipício, coração.

Tá, eu preciso chorar
Mudar a roupa, sair, dançar
Dançar, chorar
Amar

Tá eu preciso mudar
Mudar a roupa, mudar a casa, mudar o lar
Tomar meia dose
Transbordar

Beleza, já sei que preciso parar
Parar de ter, parar de ser, parar de estar
Tá, sei que não parece, sei lá
Espelhar

Tá, preciso ancorar
Pousar nas janelas, pousar nas escadas, pousar
Numa porta trancada, arrombar
Com o choro a parte, a dança cá, amar.


Soneto pleno

Quem quer que veja, no seu olhar
Quem quer que seja, paralisar
Teu olhar no meu, até outro olhar
Até outro “até”, até outro amar

Quem quer que venha, saiba morar
Numa caixa de retalhos, saber guardar
Meu sabor nos seus, lábios pousar
Noutras circunstâncias, saber voltar

Quem quer que ame, não desgrudar
Aos tropeços do acaso, equilibrar
Até não dar mais, enquanto durar

Quem quer que vá, saber deixar
Sem se doer, sem se afastar
E noutro solo, se replantar.