Escape

Não deveríamos lutar pelo amor
Que amor é esse que não pode ficar
Que no espelho, intenso, quer ferir teu pudor
No lugar do agora, quer fazer esperar

No olhar passado, não pode esquecer
No lugar do sempre nunca quis estar
Prefere a solidão que se deixar querer
Num oceano infinito, a afundar

Num trem imenso, a seguir
Nos vagões tormentos, a se olhar
Num balão sem vento, a cair
A cair no eco do lembrar

De todo caos, se despedir
E em outros planos, se encarar
Sem olhar futuro, explodir
Válvula de escape, não pensar.

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Vastidão

Se no entanto, quis partires
Porque ainda, aqui estas
Jaz no fogo, mal dizeres
Jaz no acaso, mal buscar

Luta ao livre, codinome
Vaga ao fim, sem se saber
Vá se embora, perante some
Jorre ao mar, o teu querer

Quem socorre, o mar que jorra
Na imundice que vive em vão
De águas salgadas, perante chora
Perante jorra, imensidão

Que faz no altar, o precipício
Embora jaz, sabor do não
Sem escaldar, o teu oficio
Teu precipício, coração.

Tá, eu preciso chorar
Mudar a roupa, sair, dançar
Dançar, chorar
Amar

Tá eu preciso mudar
Mudar a roupa, mudar a casa, mudar o lar
Tomar meia dose
Transbordar

Beleza, já sei que preciso parar
Parar de ter, parar de ser, parar de estar
Tá, sei que não parece, sei lá
Espelhar

Tá, preciso ancorar
Pousar nas janelas, pousar nas escadas, pousar
Numa porta trancada, arrombar
Com o choro a parte, a dança cá, amar.


Soneto pleno

Quem quer que veja, no seu olhar
Quem quer que seja, paralisar
Teu olhar no meu, até outro olhar
Até outro “até”, até outro amar

Quem quer que venha, saiba morar
Numa caixa de retalhos, saber guardar
Meu sabor nos seus, lábios pousar
Noutras circunstâncias, saber voltar

Quem quer que ame, não desgrudar
Aos tropeços do acaso, equilibrar
Até não dar mais, enquanto durar

Quem quer que vá, saber deixar
Sem se doer, sem se afastar
E noutro solo, se replantar.

Probabilidades:

Nesse mundo de ilusões
Eu encontrei você
E eu nadei contra a corrente
Sem medo de me perder

Depois de tudo o que já vivi
Decepções não podem me machucar
Mas não esperava que fossem teus olhos
Que me levariam a afundar

Nessas ruas da perdição
Não podia perder o ar
Sem querer perdi o chão
Tentando não desabar

Sem querer sei que te quis
Sem ligar nas probabilidades do não
Na galáxia de teus olhos me perdi
E tive ferido meu coração

Desesperado:

Só o amor pode nos salvar
Da incerteza que nos consome, enfim
Só o amor pode nos levar
A qualquer lugar que não existe o fim

Chegaremos bem mais longe
E cada passo nos desprende daqui
Na melodia em que a rima some
Levando embora o que nunca senti

Levando embora o que não vi
Levando embora o que deixei de ver
Deixando a solidão me consumir
Levando embora meu desamor

No som desesperado do coração
Tentando ser ouvido por alguém qualquer
Antes da despedida do nosso refrão
Que o pisoteia até esquecer.