Tá, eu preciso chorar
Mudar a roupa, sair, dançar
Dançar, chorar
Amar

Tá eu preciso mudar
Mudar a roupa, mudar a casa, mudar o lar
Tomar meia dose
Transbordar

Beleza, já sei que preciso parar
Parar de ter, parar de ser, parar de estar
Tá, sei que não parece, sei lá
Espelhar

Tá, preciso ancorar
Pousar nas janelas, pousar nas escadas, pousar
Numa porta trancada, arrombar
Com o choro a parte, a dança cá, amar.


Soneto pleno

Quem quer que veja, no seu olhar
Quem quer que seja, paralisar
Teu olhar no meu, até outro olhar
Até outro “até”, até outro amar

Quem quer que venha, saiba morar
Numa caixa de retalhos, saber guardar
Meu sabor nos seus, lábios pousar
Noutras circunstâncias, saber voltar

Quem quer que ame, não desgrudar
Aos tropeços do acaso, equilibrar
Até não dar mais, enquanto durar

Quem quer que vá, saber deixar
Sem se doer, sem se afastar
E noutro solo, se replantar.

Probabilidades:

Nesse mundo de ilusões
Eu encontrei você
E eu nadei contra a corrente
Sem medo de me perder

Depois de tudo o que já vivi
Decepções não podem me machucar
Mas não esperava que fossem teus olhos
Que me levariam a afundar

Nessas ruas da perdição
Não podia perder o ar
Sem querer perdi o chão
Tentando não desabar

Sem querer sei que te quis
Sem ligar nas probabilidades do não
Na galáxia de teus olhos me perdi
E tive ferido meu coração

Desesperado:

Só o amor pode nos salvar
Da incerteza que nos consome, enfim
Só o amor pode nos levar
A qualquer lugar que não existe o fim

Chegaremos bem mais longe
E cada passo nos desprende daqui
Na melodia em que a rima some
Levando embora o que nunca senti

Levando embora o que não vi
Levando embora o que deixei de ver
Deixando a solidão me consumir
Levando embora meu desamor

No som desesperado do coração
Tentando ser ouvido por alguém qualquer
Antes da despedida do nosso refrão
Que o pisoteia até esquecer.


Outro mundo:

Acordei num mundo novo
Refletido no calor do sol
Entre milhões de milhas de coragem
Onde ninguém possa me alcançar

E os espantalhos tem super poderes
E a overdose é só de amor
E o álcool queima os desprazeres
Como pétalas murchas de uma flor

No suor gelado onde a mente clama
O último pensamento do amanhecer
Enquanto o calor do sol seca
A última lágrima dos olhos seus

Acordei num mundo igual ao outro
E ninguém parece perceber
Enquanto meu coração mais uma vez se quebra
Tentando esquecer você

Estações:

O outono é um velho senhor

Quase sem vida e sem cor

Que troca o tom da natureza

E esconde a sua beleza

O inverno, um jovem frio

Sai por ai se escondendo

Onde passa deixa tudo vazio

A luz do sol vai apagando

O verão é bem folgado

Sentado na frente da casa

Está sempre desperto

Secando as águas

A primavera, moça bela

Canta em meio aos galhos

E quem sabe não nos cruzamos

Há qualquer hora, em qualquer rua?

Imensidão

O amor não me diz o que fazer
Enquanto essa solidão em mim não quer calar
Na imensidão do vácuo, refazer
No olhar do acaso te lembrar

Nem sei se quero ou posso te esquecer
Enquanto esse vazio em mim vir habitar
Em palavras cruzadas minha mente se perder
Ou noutros lábios os meus querer pousar

Entre as chamas meu coração vir arder
Meus pretextos detonados nesse mar
Quem lembrarás de não se esquecer
Navegando, nessas ondas me afogar

Enquanto o som se distrai a envilecer
Na multidão, memorável destacar
Sem intenção, meus anseios preceder
Intensamente, meus desejos vir falhar